Precisamos reduzir a distância entre o debate político e as demandas da sociedade

Quem gosta de debater democracia, fazer meta análise e problematizar é intelectual e militante. O brasileiro comum quer mesmo que o estado faça o máximo e, na pior das hipóteses, roubando o mínimo. Ou seja, que o estado atenda as demandas da sociedade evitando promover rupturas que prejudiquem o dia a dia do cidadão comum. Isso não quer dizer que o brasileiro é conivente com a corrupção, apenas significa que esse cidadão não se engaja no combate a ela, talvez por achar que há uma distância entre as pessoas comuns e campo de alcance da corrupção política, o que se mostra um terrível engano, visto que é o cidadão aquele que mais sofre com as consequências da corrupção.

Em uma pesquisa intitulada “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, divulgada em Abril de 2016 pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, foi revelado que o discurso de luta de classes não encontra respaldo entre eleitores pobres que já votaram no partido. Outra constatação da pesquisa é de que as pessoas estão distantes do debate político além dos fatos mais evidenciados pela grande mídia.

Alguns resultados da pesquisa, que podemos destacar, foram:

  • A formulação e debate sobre a política se dão de forma superficial e ainda de acordo com a agenda definida pela mídia hegemônica;
  • A polarização política não é bem definida ou é inexistente para o público estudado;
  • Não há segurança quanto às prerrogativas de cada poder: legislativo x executivo. No limite, é tudo “o estado”.
  • A cisão entre ‘classe trabalhadora’ e burguesia também não perpassa pelo imaginário dos entrevistados. Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso relação de exploração: um precisa do outro, estão no ‘mesmo barco’;
  • Neste contexto, o ‘inimigo’ é o Estado. Para os entrevistados, o principal confronto existente na sociedade não é entre ricos e pobres, entre capital e trabalho, entre corporações e trabalhadores. O grande confronto se dá entre Estado e cidadãos, entre a sociedade e seus governantes;
  • Todos são ‘vítimas’ do Estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou “sufocar” a atividade das empresas.

Inclusive, na ocasião da divulgação dos resultados da pesquisa, tivemos algumas postagens acaloradas de veículos de direita e de esquerda, sendo que um dos lados comemorava o resultado desfavorável à esquerda, enquanto alguns analistas da esquerda associavam os resultados à baixa qualidade da informação que é noticiada na grande mídia ou às chamadas “fake news” e ressaltavam as discrepâncias entre respostas ora mais conservadoras e outras vezes mais progressistas dadas pelos pesquisados.

Em um outro texto, que falava agora sobre a democracia e combate à corrupção, é possível observar que as manifestações contra a corrupção se dá no campo dos serviços que o estado deixa de prestar com o dinheiro roubado, desviado ou mal aplicado. No entanto o debate deveria ser mais amplo, passando também pela ameaça à democracia. O silêncio das ruas após o impeachment também explicita isso, uma vez que, com a queda da presidente Dilma, as instituições passariam a funcionar normalmente e os cidadãos poderiam voltar às suas rotinas. Mesmo que essa aparente normalidade não tenha se confirmado, nenhum abalo foi suficientemente grande para tirar as pessoas de suas casas.

Esses sinais evidenciam o descolamento entre os discursos pela democracia e a luta contra a corrupção com os anseios da população brasileira. Esse brasileiro quer que o estado faça o máximo roubando o mínimo ou a máxima do “rouba, mas faz”. Isso não significa que esse cidadão compactua com a corrupção, mas a toma como inerente ao meio político. As pessoas acham que são atingidas pela corrupção apenas no nível dos serviços que deixam de ser prestado, mas não no sentido de limitação das liberdades e desgastes na jovem democracia brasileira.

Os políticos, por sua vez, tiram proveito disso fazendo apenas o mínimo para garantir os votos nas urnas, e quando o mínimo falta, preenchem isso com boa propaganda, distribuição de verbas parlamentares e fortalecimento de alianças para se perpetuar no poder. A consequência disso é que temos uma visão rasa da democracia, analisando apenas a ponta do iceberg, do que para o povo seria suficiente, básico, trivial para o funcionamento mínimo do estado.

Umas das possíveis razões é de que não tivemos grandes lutas ao longo da história, se comparado com outras sociedades que tiveram que literalmente lutar por sua liberdade. Uma outra razão pode estar relacionada a ausência de espaços de expressão, posicionamento, relacionamentos, a nossa passividade advém dessa falta de voz das pessoas comuns. Somos muito dependentes da mídia de massa para nos informar. Ainda que a internet tenha dado mais espaço para o diálogo, pesquisas apontam que o brasileiro ainda é passível à apenas receber e compartilhar conteúdos na rede, porém é pouco afeito à produzir e se expressar aproveitando a capilaridade e o alcance dos novos meios digitais.

Porém é preciso abraçar a democracia com todos os seus aspectos que garantem a participação do povo nas decisões do estado e não somente no que a mídia evidencia, às garantias das liberdades, direitos e deveres de todos os cidadãos. A nossa democracia ainda é jovem, passamos por poucas e boas nesses últimos 30 anos, mas ainda temos muito a aprender e esse aprendizado só vai ser dar com a proximidade e o engajamento que ainda nos falta.

O desafio que temos é o de reduzir as distâncias entre o debate político e as demandas da sociedade, já que o suprimento dessas necessidades passa obrigatoriamente pela vontade política. Precisamos parar de terceirizar as ações políticas apenas para agentes públicos eleitos, que já se mostraram incapazes de atender aos nossos anseios, e temos que tomar as rédeas da democracia antes elas caiam nas mãos erradas.

A pesquisa “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, na íntegra, pode ser consultada aqui: https://fpabramo.org.br/publicacoes/wp-content/uploads/sites/5/2017/05/Pesquisa-Periferia-FPA-040420172.pdf

Geraldo Franca

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Um comentário sobre “Precisamos reduzir a distância entre o debate político e as demandas da sociedade

  1. Penso que a ORIGEM de nossas mazelas estejam na forma que pensamos nossos votos. Perpetuamos no poder famílias onde concedemos títulos de nobreza as tornando imortais na política. Vejam no calhamaço de denúncias que todos os ratos e ratazanas que caíram na ratoeira da Lava a Jato, todos tem mais que dois mandatos.

    Nos falta a cultura da ALTERNÂNCIA DO PODER em todos os níveis. Acreditamos em promessas que na fala e no papel são fáceis de executar, mas depois de eleito as prioridades passam em se manterem no sistema a qualquer PREÇO.

    Caímos sempre no velho truque midiático, de que se perseguem candidatos porque eles são os únicos que podem nos salvar. São o únicos que detém as armas necessárias para sanar nossas mazelas. Não avaliamos e não observamos a vida útil do candidato no decorrer de suas inúmeras reeleições.

    Pergunto:

    Ao postular um cargo de confiança em uma empresa privada, o que vale é só ser honesto? Qualidades administrativas, visão de futuro, visão panorâmica do sistema, bem como traquejo verbal,cultural e pessoal para lidar com um conjunto ADVERSO de pessoas e situações, não são NECESSÁRIOS?

    COMO VOTAREMOS NO ANO QUE VEM?

    Curtido por 1 pessoa

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